Dois Ajaxes que foram vendidos depois da campanha
O campeão europeu de Van Gaal em 1995 e o semifinalista de Ten Hag em 2019 eram times de academia. Os dois foram desmontados em poucas temporadas depois de provar o argumento.
1995: uma Copa Europeia ganha pela base
O Ajax de Louis van Gaal ganhou a Liga dos Campeões de 1995 com um elenco que ainda é a referência do que a academia de um clube pode produzir. Edwin van der Sar estava no gol. Atrás e no meio estavam Michael Reiziger, os irmãos De Boer, Frank e Ronald, Danny Blind, Edgar Davids e Clarence Seedorf. Finidi George e um Patrick Kluivert adolescente entravam do banco para mudar o ataque. Na final contra o então campeão Milan, em Viena, van Gaal recorreu a esse banco com o jogo sem gols, e Kluivert fez o único. Foi a quarta Copa Europeia do Ajax.
O resultado importa menos, como descrição do elenco, do que a idade dele. Vários desses jogadores eram adolescentes ou mal tinham saído dessa faixa, e tinham sido formados no Ajax, não comprados já prontos como internacionais. O mesmo grupo voltou à final no ano seguinte e perdeu nos pênaltis para a Juventus. Em poucas temporadas o núcleo tinha sido vendido, peça por peça, a clubes que podiam pagar. Foi a última vez que um time construído sobretudo com jogadores da casa ganhou a competição. O draft de 1995 é esse time no momento anterior à venda, não um kit de nostalgia com nomes holandeses famosos juntados de anos diferentes.
2019: Madrid, depois a Juventus, depois um chute nos acréscimos
O Ajax de Erik ten Hag produziu uma das grandes campanhas de azarão da competição moderna, e de novo era um time jovem, não um de talão de cheques. Frenkie de Jong e Donny van de Beek jogavam no meio. Matthijs de Ligt, ainda um capitão em formação, jogava na zaga. Hakim Ziyech e David Neres davam amplitude. Dušan Tadić foi usado como falso 9 e era o jogador por onde o ataque passava. O Ajax tirou o então campeão, o Real Madrid, nas oitavas, vencendo por 4 a 1 no Bernabéu depois de uma derrota curta no jogo de ida. Nas quartas tirou a Juventus, Cristiano Ronaldo incluído.
A semifinal é o jogo pelo qual a campanha é lembrada, e o Ajax a perdeu. Vencia o Tottenham por 2 a 0 no agregado, já fundo do segundo jogo, em Amsterdã. Lucas Moura completou um hat-trick nos acréscimos, e o Spurs passou no gol fora. Não há taça ligada ao elenco de 2019. Há a eliminação, em duas fases, do campeão e de um finalista recente, e uma semifinal que estava ganha até deixar de estar. É uma ficha de draft diferente da de 1995, que termina com o gol de Kluivert e a taça. 2019 termina com a bola na rede do lado errado, no último minuto, em casa.
O mesmo desfecho, vinte e quatro anos depois
Os dois elencos foram desmontados porque tinham provado que estavam certos. De Jong foi para o Barcelona. De Ligt foi para a Juventus. Mais gente do grupo de 2019 saiu nas temporadas seguintes, o mesmo padrão de meados dos anos 1990, quando a Copa Europeia foi seguida de uma lista de transferências. O lugar do Ajax neste draft não é 'um clube holandês com boa base' repetido duas vezes. São duas temporadas específicas em que a academia chegou a uma final ou a uma semifinal, e em que o prêmio por chegar lá foi não conseguir manter o time junto.
Colocá-los lado a lado deixa a diferença óbvia. O time de 1995 tem van der Sar, os De Boer, Davids, Seedorf e um Kluivert adolescente que faz o gol do título contra o Milan. É um campeão. O de 2019 tem de Jong, de Ligt, Ziyech, Tadić e uma vantagem de semifinal que não sobreviveu aos acréscimos. É o melhor exemplo moderno da mesma ideia caindo por um gol, contra um Tottenham que depois perdeu a final para o Liverpool. Quem quer a taça, é 1995. Quem quer a campanha que lembrou a Europa de que uma academia bem treinada ainda podia tirar Real Madrid e Juventus, é 2019. A transferência que veio depois é a nota de rodapé que os dois dividem.