O Milan de Ancelotti: três finais em cinco anos
Por que os Milans de 2003, 2005 e 2007 são três drafts diferentes, e não uma camisa só de nostalgia. A decisão por pênaltis em Old Trafford, o colapso em Istambul e a correção em Atenas.
Uma espinha, três temporadas
O Milan de Carlo Ancelotti chegou a três finais de Liga dos Campeões em cinco temporadas e ganhou duas. Quase nenhum outro clube da era moderna colocou o mesmo grupo em tantas noites de Copa Europeia num intervalo tão curto. Os times de 2003, 2005 e 2007 não foram três projetos separados, montados num catálogo de contratações. Foram um elenco envelhecendo em público: Paolo Maldini atrás, Andrea Pirlo e Gennaro Gattuso no meio, Dida no gol, e uma rotação de finalizadores na frente.
É por isso que Reis da Bola guarda os três como entradas separadas no draft, em vez de uma ficha única de 'Milan dos anos 2000'. A camisa é a mesma. O trabalho para o qual cada time foi montado, não. Um deles aprendeu a ganhar uma final feia. Outro produziu o grande primeiro tempo de uma final europeia e depois perdeu o jogo. O terceiro voltou, mais velho, e venceu o adversário que tinha levado a taça.
2003: a final que não precisou de gol
O time de 2003 conquistou a sexta Copa Europeia do Milan. A final, em Old Trafford, terminou sem gols depois de 120 minutos contra a Juventus. Andriy Shevchenko cobrou o pênalti da decisão. Atrás daquele chute havia um time desenhado em torno de experiência, não de espetáculo. Maldini e Alessandro Costacurta seguravam a zaga. Gattuso e Pirlo controlavam o meio. Rui Costa dava o último passe. Shevchenko, Filippo Inzaghi e um Kaká ainda jovem, só então se firmando como titular, dividiam os gols da campanha.
O caminho até a final foi mais estranho do que a disputa de pênaltis. O Milan eliminou o Ajax e depois o rival da cidade, a Inter, numa semifinal milanista decidida no gol fora. Os dois clubes dividem o San Siro, então nenhum dos jogos era um fora de casa no sentido comum. No Campeonato Italiano o Milan ficou em terceiro, bem atrás da campeã, a Juventus. O título europeu chegou como prova de que Ancelotti tinha montado um time de continente, não uma máquina de liga. Foi a primeira de três finais em cinco anos, e recolocou o Milan à frente de Juventus e Inter na Europa depois de uma década na sombra dos dois.
2005: o tempo que deveria ter bastado
Dois anos depois, a mesma espinha produziu um dos grandes primeiros tempos de uma final europeia, e em seguida o colapso mais famoso da competição. Em Istambul, o Milan abriu 3 a 0 em 44 minutos. Maldini marcou. Hernán Crespo marcou duas vezes. Kaká conduziu o jogo. O time em campo — Dida, Cafu, Alessandro Nesta, Jaap Stam, Gattuso, Pirlo, Clarence Seedorf, Kaká, Crespo, Shevchenko — era discutivelmente mais forte do que o que tinha levantado a taça em 2003, e tinha atravessado a fase de grupos e o mata-mata sem um susto que anunciasse o que viria.
O que veio depois é o Milagre de Istambul do lado do Liverpool, e o jogo que os jogadores do Milan ainda acham mais difícil de comentar do lado deles. Steven Gerrard cabeceou o desconto poucos minutos depois do intervalo. Aos 60 o placar já era 3 a 3. A prorrogação não resolveu. O Milan perdeu nos pênaltis. A derrota não encerrou o ciclo. Ela o congelou, e é por isso que o elenco de 2005 não pode ser arquivado como uma cópia menor de 2003. É o pico do ataque, e a noite em que esse pico não bastou.
2007: o mesmo adversário, outra noite
Em 2007 Ancelotti devolveu praticamente o mesmo grupo ao mesmo adversário, desta vez em Atenas, e venceu por 2 a 1. Inzaghi fez os dois gols. O segundo saiu de um desvio que ele depois brincou que nem tinha tentado controlar. A temporada de Kaká ficou por cima do resultado: dez gols na competição, incluindo uma arrancada de dentro do próprio campo contra o Manchester United na semifinal, e os dois prêmios de melhor do mundo naquele ano, a Bola de Ouro e o FIFA World Player. Nesta e Maldini, este já perto do fim da carreira, ainda seguravam a defesa. Gattuso e Pirlo ainda eram o motor. Foi a sétima Copa Europeia do Milan, na época atrás só do Real Madrid no retrospecto, e o segundo título continental de Ancelotti em três temporadas.
Lidos como drafts, os três anos se separam com clareza. Kaká é um prospecto ganhando minutos em 2003 e o melhor jogador do mundo em 2007. Shevchenko é o cobrador em Manchester e o atacante que não fechou a noite em Istambul. Inzaghi é opção de elenco na primeira final e o homem que decide a terceira. Quem escolhe um desses Milans não está escolhendo 'a era Ancelotti'. Está escolhendo uma noite de uma discussão de cinco anos, e as outras duas noites são outros times.
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